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Não estava habituada a ficar sozinha. Na casa cheia de irmãos e barulho, todos sempre tinham companhia, até quando não queriam.
Olhando para as paredes do quarto via as fotos dos irmãos, que lhe faziam companhia em silêncio. Percebeu que não se incomodava tanto em estar só.
Sozinha lia um livro, ouvia música, arrumava a cama, fazia as refeições e lavava a louça. Sozinha pegava o metrô e caminhava na manhã fria.
Solidão só sentia mesmo quando não tinha ninguém com quem ver o pôr-do-sol cruzando a Pont-Neuf.
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Fazia uma semana que havia chegado em Paris e caminhava pelas ruas tentando descobrir os caminhos. Cuidadosamente estudava mercados e lojas no percurso. Tudo muito importante.
A idéia de vir morar sozinha em um pais estranho agora lhe parecia idiota. Recomeçar a vida, o conceito contido no sulfixo da palavra talvez não se aplique. Como a gente refaz uma coisa que não era antes? Parou e olhou uma bonita saia na vitrine. Definitivamente não sabia se vestir como as parisienses, pensou. Mas a loja parecia boa e não tinha preços exorbitantes como a maioria delas em Saint German de Près. Memorizou o nome, o qual certamente não lembraria depois.
Entrou no mercado e adquiriu o que achou que era necessario. Não queria comprar muita coisa, porque teria que ir carregando tudo. Quando saiu com mais de quatro sacolas achou prudente leva-las para o apartamento. Riu com a idéia de ter chamado o lugar onde morava de apartamento.
Ainda não havia se habituado a chamar seus 15 metros quadrados que incluiam quarto, banheiro e cozinha de casa. Tentava evitar essa sensação de provisioriedade, mas era inevitavel. Seu pequeno estudio à duas quadras da universidade estava bem arrumado, depois de dois dias de faxina. Quando foi a ultima vez que fizera uma limpeza assim no seu quarto em casa? Não lembrava.
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Subimos calmamente o morro e paramos para comprar uma baguete. Cruzou minha mente a idéia de caminhar com uma baguete debaixo do braço, mas não o fiz.
E enquanto o sol se punha numa sexta-feira à tarde caminhavamos pelas estreitas ruas. Subimos as escadas enquanto comiamos pedaços da baguete. A visão da grande igreja, toda branca, e uma cidade inteira embaixo pareceram normal e eu sorri.
Quem sabe Paris não poderia ser, uma dia, minha casa.
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Chegar. Sensação de estar perdida. Não sei explicar aonde eu quero chegar. Não falo a sua lingua…quer dizer falo, mas muito mal. Chorar a noite toda e por mais uma semana. Estar num pais onde não se entende o que é saudade.
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Não existiria nenhum outro jeito para descrever Paris. Talvez houvesse muitas outras formas de descrever minha vida, mas por um momento as duas coisas se unem. Um certo escapismo romântico na escolha do meu destino? Talvez. Mas foi-se a época que Paris era a cidade dos artistas e dos filosofos.
Paris agora é a cidade dos turistas asiaticos que preenchem cada metro quadrado com suas cameras de ultima geração, das compras, da futilidade da moda, dos banlieus, da discriminação social, uma cidade onde 6 a cada 10 jovens estão desempregados e o numero de pedintes aumenta a cada dia. A cidade é uma metropole, com todos os seus contrastes e dificuldade.
Para essa Paris que eu parto e é ai que eu vou (re)construir minha vida durante ao menos dois anos. Chego em Paris com duas malas de 30 quilos, alguns sonhos e muito medo. Chego em Paris dentro de alguns dias, sozinha pela primeira vez na minha vida.